domingo, 3 de abril de 2011

Escolha profissional: uma questão de prestígio

*A Pauta*

Um rapaz e uma moça, de vinte e poucos anos, conversavam no ônibus. Pelo que entendi, eram conhecidos que não se viam há um tempo. O rapaz perguntou sobre uma amiga em comum. A garota respondeu que ela estava desempregada, e completou “mas também, foi estudar secretariado! Trabalho que qualquer um faz.”.

*O Ponto*

Alguns cursos não têm muito prestígio.

Não sei se era uma coisa da universidade onde eu estudei, mas sempre ouvi piadinhas com os alunos de algumas graduações, como se certas profissões fossem mais importantes, ou melhores, do que outras. Algumas são mais bem remuneradas, é claro, outras trazem mais benefícios práticos e mensuráveis para a sociedade, mas dizer que um curso é “melhor” do que outro é um julgamento de valor bastante pessoal, creio eu.

Quando ouvi essa conversa no ônibus, fiquei pensando sobre o porquê disso. Alguns cursos são realmente novos, e por isso é normal que sejam menos valorizados do que cursos tradicionais, como direito e medicina. Se formos pensar, não faz muito tempo que existem universidades no Brasil: uma pesquisa rápida no Google informa que em 1808, foi criada a Escola de Cirurgia da Bahia, hoje Faculdade de Medicina da Bahia; mas a maioria dos historiadores diz que a primeira a reunir mais de um curso – ou de uma faculdade – foi a do Rio de Janeiro hoje UFRJ, criada em 1920. A noção de curso superior, então, é relativamente recente no nosso país. Mais recente ainda é o acesso a essa educação pela classe média. São mais cursos sendo oferecidos e mais pessoas podendo/querendo cursá-los. É mesmo bom que se tenha variedade.

O problema é que, na hora de escolher um curso, todo mundo tem uma opinião para dar. Sei que muita gente que escolhe Arquitetura ouve que devia ter feito Engenharia. E os que fazem curso superior de Enfermagem? Já presenciei pessoas sugerindo que só escolhe esse curso quem não tem capacidade para cursar Medicina. O que não é verdade de maneira nenhuma!

Na hora da inscrição para o vestibular ou no Enem, muita coisa pode ser levada em conta. Muita gente tenta prever, ou analisar friamente, as futuras necessidades do “mercado”. O fato é que não se pode prever o futuro. Formar-se num curso “do momento”, com muitas oportunidades profissionais, não é garantia de felicidade (nem de emprego) para ninguém. Escolher uma profissão aos 17, 18 anos, já é bastante cruel. Eu, particularmente, não conhecia metade das opções quando tinha essa idade. Mais tarde, já na universidade, é que fui descobrir cursos, profissões, possibilidades.

É ótimo que haja incentivo para algumas áreas e profissões. O país pode se beneficiar muito se formar mais engenheiros civis? Claro! Mas o país pode se beneficiar muito se tiver profissionais de qualidade em todas as áreas! Sejam eles engenheiros, físicos, médicos, advogados, professores, jornalistas, contadores, historiadores, etc.! Pode se beneficiar muito também se tiver profissionais de nível técnico bem formados e bons profissionais de áreas que exigem menos qualificação, mas que tenham noções de segurança do trabalho, que conheçam seus direitos e deveres e tenham boas condições de trabalho.

Não conheço a garota que fez secretariado e está desempregada, não sei se ela gostou do curso, se era seu sonho ou se estudou isso por conveniência. Mas tenho minhas dúvidas se, caso ela tivesse estudado Direito ou Engenharia e estivesse desempregada, a culpa recairia sobre sua escolha...

O que vocês acham? Já foi criticado pela sua escolha profissional? E se arrependeu da escolha, ou acha que não pode ter feito melhor? Aos comentários!

domingo, 6 de março de 2011

Infância à venda!

*A Pauta*

Passaram por mim, descendo do ônibus, uma garota, de uns 7 anos, e sua avó. As roupas da menina, porém, não tinham nada de infantil, e antes de descerem do ônibus ouvi ela perguntar: “Vó, minha maquiagem já saiu? Ainda tô com a sombra?”.


*O Ponto*

Eu já fui uma menina de 7 anos. E como a maioria delas, eu ficava extremamente agitada quando ganhava uma “pintura” (como eu chamava na época). Era tão adulto! Usar maquiagem aos 7 anos era emocionante, era “adulto” e não era sério. Fazia parte da brincadeira, como era brincar de casinha ou de qualquer outra coisa.

Não sei se era esse o caso da garotinha no ônibus, mas o que me espanta hoje é ver que meninas de 7, 8 anos já não gostam de ser chamadas de crianças, frequentam salão e gastam tempo e dinheiro preocupadas com a própria imagem.

Fiquei pensando sobre isso, essa onda de “vaidade infantil”, e como ela também pegou os meninos. Claro que na minha infância já havia um ou outro garoto mais preocupado com o visual, mas no geral os meninos eram conhecidos por não se preocuparem com nada. Hoje, é normal encontrar meninos de 9 anos usando brinco, cortes de cabelo da moda e extremamente preocupados com o visual.

As crianças parecem viver cada vez menos a infância. Toda essa vaidade, preocupação com o visual e a imagem que os outros têm de nós, costumava ser algo que só começava na adolescência. Refletindo sobre isso, lembrei de um documentário que assisti faz um tempo aqui mesmo na internet. O filme chama “Criança, a alma do negócio” e fala sobre como a “redução” da infância cria mais consumidores, não só consumidores de artigos de primeira necessidade – comida, material escolar, lazer -, mas consumidores cheios de vontades e opiniões. (Abaixo você pode assistir a primeira parte do documentário. Ele está divido em seis partes, que você pode encontrar no youtube).


Faz bastante sentido, não é? Adolescentes são influenciáveis, parecem ter cada vez mais poder aquisitivo e costumam ter muito tempo livre (a maioria ainda não precisa se preocupar com trabalho e contas a pagar). Isso faz deles os consumidores dos sonhos do nosso sistema capitalista.

Isso tudo não é novidade. Quero dizer, há 15 anos uma lancheira já era mais do que uma simples bolsa para levar lanche para a escola, era também uma competição de quem tinha a mais recente, “da moda”, do melhor personagem. Arrisco a dizer que já bem antes dos anos 90 produtos temáticos vendiam mais e as crianças eram alvo fácil da publicidade. Mas não dá para negar que as coisas têm piorado, ou, tentando não julgar, têm ficado mais “intensas”. A TV ainda tem uma grande influência, mas ela ganhou uma poderosa companheira no computador. A internet serve muito bem para potencializar o consumista que existe em todos nós. Veja o filme! Navegue no site! E, claro, compre o produto!

Sinceramente, para que ficar falando das crianças quando eu posso perguntar: será que eu preciso mesmo daquele novo modelo de celular que só falta lavar a louça, de tão completo, e que eu fiquei morrendo de vontade de ter depois de ver tantas propagandas? No final, parece, somos todos “crianças”.